Por que esta entrevista importa

Esta entrevista mostra como uma founder que atua a partir de Dubai pensa sobre entrada no mercado dos Emirados Árabes Unidos, confiança em B2B, valor real de um produto com IA e crescimento construído por meio de parcerias. O conteúdo é especialmente útil para empresas dos países BRICS que precisam de uma leitura mais concreta sobre como decisões de negócios realmente se formam nos Emirados.

Pontos principais

  • O ponto de partida deve ser entender o ambiente, não vender de forma agressiva.
  • Em um ambiente de negócios multicultural, a comunicação precisa ser adaptada.
  • IA gera valor quando muda a economia do processo ou a qualidade da execução.
  • O crescimento tende a ser mais forte quando nasce dentro de um ecossistema de parcerias.

Nota da redaçãoPara a audiência da B2BRICS, os Emirados Árabes Unidos não são apenas um hub de negócios em alta velocidade, mas um ambiente real em que estratégia, confiança e execução são testadas todos os dias. É por isso que esta conversa importa. Angelina Safonova fala a partir de experiência operacional, não de teoria distante da prática. As reflexões dela são especialmente relevantes para founders, líderes de growth e times B2B que enxergam Dubai como uma ponte entre os mercados BRICS e o cenário global mais amplo.

Base profissional

Q1
Se você tivesse que se apresentar de forma breve aos leitores da B2BRICS Magazine, como descreveria seu foco profissional hoje? E como crescimento estratégico, produtos AI-driven, parcerias e expansão para o mercado dos Emirados se encontraram em uma mesma trajetória?

Se eu resumisse de forma simples, hoje eu trabalho no cruzamento entre três frentes: growth, produtos com IA e parcerias internacionais.

Minha abordagem sempre foi prática. Nunca me interessou apenas criar um produto, mas entender como ele gera resultado, cresce e encontra um lugar real no mercado. Com o tempo, isso me levou de forma natural para growth strategy e go-to-market, especialmente no B2B.

Hoje estou construindo uma plataforma com participação direta de IA. Ao mesmo tempo, desenvolvemos não só o produto em si, mas também a rede de parcerias e o caminho de entrada no mercado ao redor dele. Estamos em uma fase ativa de crescimento e abertos ao diálogo com parceiros internacionais e investidores, porque projetos assim crescem melhor dentro de um ecossistema do que de forma isolada.

Q2
Por que você escolheu Dubai como base para viver e trabalhar? O que os Emirados Árabes Unidos oferecem a uma founder ou estrategista de negócios que quer construir relações B2B internacionais de longo prazo?

Eu moro em Dubai há mais de oito anos, então para mim isso deixou de ser apenas uma localização e passou a ser um ambiente real de trabalho. Quando cheguei aqui pela primeira vez, em 2016, tive quase imediatamente a sensação de que era aqui que eu queria viver, aprender e construir negócios.

Aqui fica muito claro, e muito rápido, se um modelo realmente funciona ou não. Não existe tanto espaço para ficar aperfeiçoando algo em silêncio por muito tempo. O mercado testa você logo.

Dubai também é um ponto muito conveniente quando você trabalha entre países. Em pouco tempo, é possível construir relações com pessoas de regiões muito diferentes.

Mas existe uma coisa importante: Dubai não torna os negócios mais fáceis. Dubai acelera tudo. Se existem fragilidades, elas aparecem rápido. Eu mesma passei por isso, e talvez por isso hoje eu olhe para crescimento com mais disciplina e consciência.

Entrada no mercado dos Emirados

Q3
A expressão UAE market expansion muitas vezes soa abstrata. Na prática, o que isso significa? E por onde as empresas realmente devem começar quando olham para os Emirados como porta de entrada regional ou hub global?

Muita gente pensa que isso significa apenas abrir uma empresa e começar a vender. Na prática, o processo é bem mais complexo.

O primeiro ponto é acesso às pessoas certas. Sem isso, avançar se torna muito difícil. Aqui, muita coisa ainda se constrói por meio de relacionamento e leitura de contexto.

O segundo ponto é adaptação. Em certo momento, nós percebemos que copiar um modelo exatamente como ele funcionava em outro lugar simplesmente não dava resultado aqui. Foi um aprendizado importante, embora nada fácil.

Hoje nós vemos expansão como um jogo de longo prazo: primeiro você se integra ao ambiente, depois cresce. Pela minha experiência, esse caminho traz um resultado mais consistente.

Q4
Quais erros mais comuns você vê em empresas que tentam entrar nos Emirados sem compreender profundamente a cultura local de negócios, a velocidade de decisão e a lógica das parcerias?

O erro mais comum é acreditar que um produto forte já basta.

Na realidade, o produto é apenas uma parte da equação. A outra parte é confiança. Sem confiança, as transações simplesmente não avançam de verdade.

Outro erro é esperar resultado rápido sem construir a base antes. Sim, muitas coisas podem andar com velocidade aqui, mas isso geralmente acontece depois que o fundamento já foi construído.

Nós mesmas passamos por parte desses erros. Por isso, hoje olhamos a estratégia com muito mais atenção. Isso mudou a forma como construímos produto e também a forma como criamos parcerias.

Mesmo empresas com reputação global forte podem não conseguir se firmar nos Emirados se tentarem impor sua lógica antiga sem adaptação ao mercado. Eu vi isso de perto em 2019, quando trabalhava no setor de construção. Uma empresa europeia queria entrar nos Emirados não apenas como fornecedora, mas também abrir um escritório para executar projetos de fit-out para grandes clientes. Na Europa, ela tinha excelente reputação, mas depois de um ano em Dubai precisou fechar essa operação e ficou apenas como fornecedora. O principal erro foi achar que um nome forte e reconhecimento europeu trariam o mesmo resultado aqui. Não trouxeram. É preciso adaptação e capacidade de trabalhar com pessoas de diferentes origens nacionais e culturais.

Q5
Quão crítica é a comunicação intercultural no trabalho B2B real em Dubai? Que nuances os times estrangeiros mais costumam subestimar?

Sendo muito direta, sem comunicação intercultural quase não é possível trabalhar aqui de forma eficiente.

Todos os dias você conversa com pessoas de países diferentes, e cada grupo carrega um estilo próprio de comunicação. Em alguns contextos, a comunicação é muito direta; em outros, acontece exatamente o oposto.

O principal erro é falar com todo mundo do mesmo jeito. Isso não funciona.

Com o tempo, você começa a perceber melhor como construir o diálogo: quando precisa ser mais firme, quando é melhor ser mais suave e quando faz sentido simplesmente dar mais tempo. Isso influencia diretamente as negociações, sobretudo quando estamos falando de parcerias e conversas com investidores.

“Dubai não torna os negócios mais fáceis. Dubai acelera tudo.”

IA, produto e go-to-market

Q6
Hoje quase toda empresa usa expressões como AI-powered ou AI-driven. Na sua visão, onde a IA realmente cria valor em B2B, e onde ela permanece apenas como camada de aparência?

Hoje todo mundo fala de IA, mas nem sempre fica claro para quê.

Para mim, o critério é simples: se a IA não muda o negócio em dinheiro, velocidade ou qualidade, então ela funciona mais como embalagem do que como valor real.

Nós tentamos construir o produto em torno de utilidade prática. Sem isso, no B2B, um produto não se sustenta por muito tempo, por mais bonita que seja a apresentação.

Q7
Você constrói uma plataforma AI-driven ao mesmo tempo em posicionamento, desenvolvimento e go-to-market. O que há de mais difícil nesse trabalho? E como você mantém equilíbrio entre produto, estratégia e comercialização?

O mais difícil é justamente manter o equilíbrio.

É muito fácil mergulhar completamente em desenvolvimento ou, no extremo oposto, cair totalmente em vendas. Nos dois casos, você pode perder a visão do conjunto.

Eu mesma já passei por isso, e foi um processo duro. Hoje eu tento manter produto, estratégia e execução comercial andando de forma sincronizada.

Existe ainda outro ponto importante: desde o começo, nosso time enxergou parcerias como parte do crescimento. Por isso, hoje estamos abertas a investidores e parceiros estratégicos que possam fortalecer o projeto não só com capital, mas também com acesso ao mercado.

Q8
Na sua visão, o que define uma estratégia B2B de go-to-market forte em 2026? Que abordagens de posicionamento, tração inicial e parcerias parecem mais eficazes agora?

Hoje não vence quem fala mais alto, e sim quem formula valor com mais precisão e aprende mais rápido com a realidade.

Eu vejo cada vez mais que estratégias amplas demais não funcionam. O que funciona é foco: um nicho mais definido, uma proposta de valor clara e proof points rápidos. Se você consegue mostrar resultado em um segmento específico, escalar passa a ser uma questão de tempo, e não de suposição.

Nós chegamos a essa visão a partir da própria experiência. Antes havia vontade de ir mais amplo e mais rápido. Agora escolhemos estreitar o foco para chegar mais cedo à tração real.

Parcerias são outro fator-chave. Em B2B, elas muitas vezes criam um efeito multiplicador. Por isso, nós não enxergamos go-to-market apenas como entrada em mercado, mas como integração em um ecossistema já existente.

Dubai como ponte para os BRICS

Q9
A B2BRICS acompanha de perto como os Emirados se tornam um espaço de encontro entre capital, tecnologia, comércio e empreendedorismo de vários países. Que mudanças você percebe no papel de Dubai como ponte entre os BRICS e os mercados globais mais amplos?

Nos últimos anos, o papel de Dubai mudou muito.

Dubai já não é apenas uma geografia conveniente. É um ambiente de trabalho em que diferentes mercados realmente se encontram no nível das pessoas, do capital e dos projetos.

Aqui fica mais fácil começar uma conversa e mais rápido entender se uma ideia tem potencial. Se esse potencial existe, os próximos passos podem evoluir de forma bastante dinâmica.

Nós vemos isso também na prática: cresce o interesse por soluções de tecnologia, ferramentas B2B e novos formatos de colaboração. Existe uma sensação de estar dentro do processo, e não apenas observando de longe.

Liderança e lógica de decisão

Q10
No seu perfil aparecem palavras muito precisas, como clarity, precision e long-term vision. Como esses princípios se manifestam no trabalho diário? Que tipo de decisão eles ajudam você a tomar melhor?

Para mim, clareza e velocidade são essenciais.

Eu tento entender rápido o que realmente influencia o resultado e o que apenas adiciona complexidade desnecessária. Não gosto de gastar tempo com complexidade que existe só para parecer sofisticada.

Com a experiência, eu entendi que decisões perfeitas não existem. Muito mais importante é decidir na hora certa e estar pronta para ajustar a decisão, se for necessário.

Isso é especialmente importante em um ambiente que se move rápido. Às vezes, atrasar uma decisão custa mais caro do que o próprio erro.

Q11
Como Dubai e o trabalho em um ambiente internacional altamente competitivo mudaram você profissionalmente? O que você hoje enxerga de forma diferente nos negócios em comparação com alguns anos atrás?

Talvez a principal mudança seja que você começa a olhar para a realidade de forma muito mais honesta.

No começo, sempre existem expectativas, ideias e uma imagem própria de como tudo deveria funcionar. Mas em um ambiente como Dubai essa imagem encontra a prática muito rapidamente. No fundo, isso é saudável, porque remove as ilusões e deixa apenas o que realmente faz sentido.

Eu me tornei mais rápida para decidir e mais tranquila para aceitar que nem tudo funciona na primeira tentativa. Os erros deixam de parecer um problema em si e passam a ser parte do processo, algo do qual você precisa tirar conclusões rápido e seguir em frente.

Ao mesmo tempo, o padrão de resultado sobe. Você já não quer dedicar tempo a coisas que não geram retorno. Começa a sentir com mais precisão onde existe potencial e onde não existe, e passa a agir a partir dessa leitura, não apenas da emoção.

Outra mudança tem a ver com velocidade. O que antes parecia rápido, aqui vira normal. Ou você se adapta a esse ritmo, ou começa a ficar para trás.

Conselhos práticos para os leitores da B2BRICS

Q12
Que conselho você daria a founders, especialistas de growth e times B2B dos países BRICS que querem construir presença de longo prazo nos Emirados e desenvolver produtos no encontro entre estratégia, tecnologia e mercados internacionais?

Falando a partir da prática, eu não recomendaria tratar entrada em mercado como uma tarefa isolada.

É muito mais eficaz primeiro entender como o mercado funciona por dentro: quem decide, como as relações são construídas, o que realmente importa para o negócio e o que permanece apenas na superfície.

Com muita frequência, empresas começam pelo produto ou pelas vendas sem entender o contexto. Como consequência, perdem tempo e recursos. Uma abordagem mais forte faz o contrário: primeiro o ambiente, depois posicionamento, e só então escala.

O segundo ponto é não tentar fazer tudo sozinho. Na realidade atual, crescimento quase sempre acontece por interação: parcerias, colaborações, acesso compartilhado a audiências e combinação de expertises.

E talvez o mais importante seja estar pronta para revisar as próprias decisões. O mercado muda rápido, e o que funcionava ontem nem sempre funciona hoje. Flexibilidade aqui não é fraqueza, é vantagem.

Se você mantém abertura para aprender, para entender pessoas e para experimentar novas formas de trabalho, o número de oportunidades cresce, e muitas vezes elas chegam mais rápido do que se imaginava.

Sobre a especialista

Angelina Safonova é uma entrepreneur que atua no encontro entre produtos com IA, vendas e crescimento estratégico.

Nascida em Belarus, ela vive e faz negócios nos Emirados Árabes Unidos há mais de oito anos.

Sua trajetória começou em vendas aos dezessete anos e depois avançou por construção, real estate e soluções de interiores, passando de vendas diretas para desenvolvimento B2B e formação de parcerias.

Hoje ela desenvolve um produto com IA com foco em comercialização, posicionamento e expansão nos mercados do Golfo.

No seu trabalho, ela prioriza valor claro de produto, velocidade de execução e capacidade de adaptação em um ambiente internacional que muda rápido.

Nome: Angelina Safonova
Função: Founder & CEO
Local: Dubai, United Arab Emirates