O MARTELO DA AMAZÔNIA: BRASIL ENTREGA A LIDERANÇA DO BRICS À ÍNDIA (2026)
RESUMO (ABSTRACT)
Em 12 de dezembro de 2025 (Brasília), o Brasil transferiu formalmente a presidência do BRICS para a Índia, que assumirá a coordenação a partir de 1º de janeiro de 2026. Não se trata de uma rotação de rotina: a transição sinaliza uma nova etapa de integração econômica do Sul Global, na qual facilitação do comércio, financiamento climático e governança digital passam das declarações para a execução. Este artigo apresenta a versão completa do brief da B2BRICS: a simbologia do “martelo amazônico”, a passagem do BRICS-5 para um formato ampliado, os resultados da presidência brasileira em 2025, a agenda indiana de 2026 baseada na filosofia “Humanity-First” e em quatro pilares (Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade), o debate sobre o BRICS Pay, os riscos (volatilidade cambial, exposição a sanções e divergências internas) e implicações práticas para exportadores e plataformas B2B.
Palavras-chave primárias: BRICS presidency 2026, India BRICS leadership, BRICS India 2026, BRICS news December 2025. Secundárias: BRICS Pay, BRICS financial system, Global South economic integration, BRICS digital infrastructure, B2B trade BRICS. Long-tail: How does India’s BRICS presidency affect B2B trade, BRICS financial alternatives to dollar, Digital Public Infrastructure BRICS, What are India’s priorities for BRICS 2026.
Fatos-chave
- A Índia assume a presidência do BRICS em 1º de janeiro de 2026.
- O BRICS representa cerca de 29,8% do PIB nominal global e cerca de 58,6% do PIB global em PPC (PPP).
- A Índia planeja 100+ reuniões em aproximadamente 60 cidades indianas.
- BRICS Pay é descrito como estando em fase de testes.
- O “martelo amazônico” é apresentado como símbolo de uma abordagem de desenvolvimento sustentável.
Introdução: um ponto de inflexão para o Sul Global
O mundo entra em um período de reconfiguração histórica do sistema econômico internacional. Em 12 de dezembro de 2025, o Brasil transferiu formalmente a presidência do BRICS para a Índia — em meio ao aumento da pressão ocidental e a esforços renovados para construir alternativas financeiras e comerciais à infraestrutura centrada no dólar.
Para participantes do comércio B2B, exportadores e plataformas que operam no BRICS+, a transição abre grandes oportunidades, mas também introduz novos riscos operacionais e geopolíticos.
Parte 1. Por que a transferência importa
1.1 A simbologia do “martelo amazônico”
Na 4ª reunião dos Sherpas do BRICS em Brasília, o embaixador Maurício Lyrio (Brasil) entregou o martelo ao embaixador Sudhakar Dalela (Índia). O objeto em si carrega uma mensagem: segundo o brief, ele foi feito de madeira reciclada da floresta amazônica, incluindo itaúba (Handroanthus crassifolius), pau rainha (pau d’arco) e jaqueira (Theobroma speciosum), a partir da comunidade de Novo Airão (Amazonas).
A narrativa do Brasil: o martelo representa tanto a resiliência quanto as raízes profundas de cooperação que unem o grupo, conectando a transição de presidência à sustentabilidade e à responsabilidade ambiental.
1.2 Expansão do BRICS: de cinco para onze membros
O BRICS expandiu-se além do formato original. Os membros plenos listados para 2025 são: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Arábia Saudita.
O brief também lista países parceiros BRICS+ (13+): Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Tailândia, Uganda, Uzbequistão, Vietnã, Turcomenistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Azerbaijão.
Peso agregado citado: mais de 3,5 bilhões de pessoas (cerca de 43% da população mundial), aproximadamente US$ 27 trilhões de PIB nominal (cerca de 29,8% do global) e aproximadamente US$ 53 trilhões de PIB em PPC/PPP (cerca de 58,6% do global). A mensagem é clara: o BRICS ampliado aumenta alcance geopolítico, mas também aumenta heterogeneidade — e, portanto, custos de coordenação.
Parte 2. O que o Brasil entregou em 2025
O Brasil presidiu o BRICS com o mote: “Fortalecer a cooperação Sul–Sul e a construção de consenso para uma governança global mais inclusiva e sustentável”. O brief agrupa as entregas em resultados políticos, iniciativas financeiras e programas sociais/regionais.
2.1 Resultados políticos
- Rio Declaration: posicionada como um documento de grande escala sobre governança inclusiva, assinado por líderes dos 11 membros, com compromissos em clima, finanças e tecnologia.
- BRICS Leaders’ Declaration on Global Governance of Artificial Intelligence: sinal de que o BRICS quer influenciar a governança de IA, refletindo necessidades de países em desenvolvimento e preocupações com monopólios de tecnologia do Ocidente.
- Framework Declaration on Climate Finance: apresentada como a primeira estrutura de financiamento climático do BRICS, com ênfase em mobilizar financiamento acima de US$ 100 bilhões e maior foco em adaptação (não apenas mitigação).
2.2 Iniciativas financeiras
- Multilateral Guarantee Mechanism no âmbito do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), para garantir investimentos em países em desenvolvimento.
- BRICS Pay (fase de testes): ferramenta de pagamento em moedas locais, com proposta de estrutura de 40% ouro + 60% moedas BRICS+; foco em comércio B2B; implantação esperada em 2026–2027.
- Expansão do NDB: mais escritórios/filiais, aumento da capacidade de financiamento e trabalho em um ativo de reserva.
2.3 Programas sociais e regionais
- BRICS Partnership for Addressing Socially Determined Diseases: cooperação em saúde focada em doenças ligadas a condições socioeconômicas.
- Iniciativas regionais: fortalecimento do BIMSTEC (Sul da Ásia), avanço da cooperação na África Oriental e construção de interação Mercosul–BRICS.
2.4 Indicadores quantitativos (como citados)
- 126 compromissos em trilhas de cooperação.
- 200+ reuniões oficiais em diversos níveis.
- 200+ novos mecanismos criados para cooperação.
- 60+ grupos de trabalho temáticos em operação.
Parte 3. Presidência da Índia em 2026: quatro pilares + “Humanity-First”
A visão da Índia é estruturada em quatro pilares e na filosofia “Humanity-First Approach”. O brief destaca a intenção de descentralizar o engajamento do BRICS — realizando encontros não apenas em capitais, mas em regiões e cidades — tornando o BRICS mais inclusivo e ancorado na economia real.
3.1 Pilar 1: Resiliência (Resilience)
Definição (no contexto do BRICS): capacidade do sistema global de se recuperar rapidamente de choques econômicos, geopolíticos e ambientais.
- Soberania financeira: reduzir dependência do SWIFT, construir interfaces de pagamento e criar ativos de reserva em moedas locais.
- Segurança energética: diversificação de fontes, renováveis e reservas estratégicas de petróleo e gás.
- Estabilidade econômica: coordenação macro, proteção contra especulação cambial e acordos comerciais sem mediação de terceiros.
- Resiliência de cadeias de suprimento: localização de componentes críticos, diversificação de matérias-primas e hubs logísticos regionais.
3.2 Pilar 2: Inovação (Innovation)
Definição: produzir e distribuir soluções tecnológicas acessíveis a todos os membros do BRICS — especialmente países em desenvolvimento.
- Digital Public Infrastructure (DPI): UPI e Aadhaar como modelos reutilizáveis para democratizar acesso a finanças digitais.
- Governança de IA: alternativa às abordagens regulatórias do Ocidente; desenvolvimento de modelos domésticos e padrões éticos alinhados às necessidades do Sul Global.
- Tecnologia de minerais críticos: cooperação em extração e processamento de terras raras; baterias e armazenamento; redução de dependência de um único país.
- Sistemas monetários alternativos e CBDC: explorar um ativo/“moeda de reserva” do BRICS e interoperabilidade entre CBDCs nacionais sem controle externo.
3.3 Pilar 3: Cooperação (Cooperation)
Definição: integração mais profunda de economias, cultura e subsistemas de governança.
- Cooperação Sul–Sul: crescimento do comércio intra-BRICS, transferência de tecnologia e infraestrutura conjunta; o brief menciona meta de +30–50% em 2026.
- Integração regional: BIMSTEC, expansão da Comunidade da África Oriental, interação Mercosul–BRICS e diálogo ASEAN–BRICS.
- Facilitação do comércio: harmonização aduaneira, reconhecimento mútuo de certificações e infraestrutura de e-commerce; impacto citado: reduzir liberação aduaneira de 5–7 dias para 1–2 dias.
- Intercâmbio cultural e humano: 100+ encontros em ~60 cidades; engajamento de jovens, cientistas e empreendedores; programas de intercâmbio e estágios.
3.4 Pilar 4: Sustentabilidade (Sustainability)
Definição: desenvolvimento de longo prazo sem prejudicar o meio ambiente e as gerações futuras.
- Financiamento climático: mobilização acima de US$ 100 bilhões/ano; distribuição justa; foco maior em adaptação; financiamento de desenvolvimento sustentável em países menos desenvolvidos.
- Tropical Forest Forever Fund: criado na presidência do Brasil e continuado sob a Índia; preservação da Amazônia, florestas do Congo e florestas tropicais da Índia; compensação por conservação.
- Transição energética verde: cooperação em renováveis — solar, eólica e hídrica.
- Resiliência ambiental: biodiversidade, redução de risco de desastres, adaptação climática e gestão da água.
Parte 4. Peso econômico do BRICS no sistema global
4.1 BRICS vs G7 (como citado)
- Participação no PIB nominal: BRICS ~29,8% vs G7 ~44,0% (diferença ~14,2 p.p.).
- Participação no PIB (PPP): BRICS ~58,6% vs G7 ~30,0% (BRICS cerca do dobro).
O brief enfatiza que o peso em PPP reflete poder de compra, enquanto o nominal é reduzido por moedas mais fracas (rublo, rupia, real), diminuindo a “visibilidade” em termos de USD.
4.2 Posição em recursos (como citado)
- Petróleo e gás: o brief afirma que o BRICS controla 35%+ das reservas globais.
- Terras raras: o brief cita a dominância chinesa e sugere posição próxima de monopólio do bloco.
- Agricultura: o brief afirma 55%+ das exportações agrícolas globais com contribuições importantes de Brasil, Índia e Rússia.
Parte 5. Desafios que a Índia enfrentará em 2026
5.1 Equilibrar interesses em um BRICS ampliado
O brief destaca que o BRICS não é mais homogêneo: tensões Índia–China, competição Arábia Saudita–Irã, disputas Egito–Etiópia e posições divergentes em conflitos relevantes tornam a construção de consenso mais lenta.
5.2 Volatilidade cambial como restrição para o BRICS Pay
Um problema prático para o BRICS Pay é a instabilidade das moedas. O brief cita movimentos 2024–2025 (exemplos): rublo -40% vs USD, rupia -8%, real -12%, rand -15%. A mitigação proposta: 40% ouro + 60% cesta de moedas — mas a volatilidade permanece um desafio para precificação e liquidação no comércio real.
5.3 Risco de sanções e tarifas dos EUA
O brief afirma que o governo Trump ameaçou sanções contra países que tentem reduzir o papel do dólar, incluindo tarifas (25%) e pressão sobre redes de pagamento/infraestrutura. O argumento é que isso pode desacelerar a adoção do BRICS Pay e aumentar a cautela de países dependentes de liquidação em USD.
5.4 Expansão torna decisões mais lentas
Mais membros e parceiros significam mais vozes, procedimentos mais lentos e risco de diluição de influência; o brief cita um exemplo de negociações longas em cúpula para ilustrar o custo de consenso.
5.5 Visões divergentes de futuro
O brief descreve posturas diferentes: Brasil mais cauteloso, Índia mais ambiciosa, China estratégica, Rússia focada em desglobalização e outros com posições menos claras — o que complica ação unificada.
Parte 6. Oportunidades para comércio B2B e plataformas como a B2BRICS
6.1 Calendário descentralizado: 60 pontos de entrada
O plano de 100+ reuniões em ~60 cidades cria novos pontos de contato fora de Nova Délhi. O brief sugere usar isso para fóruns regionais de fornecedores e pipelines localizados para exportadores e importadores.
6.2 Interoperabilidade de pagamentos: UPI, SPFS, CIPS, Pix
O brief enquadra o BRICS Pay como um projeto de interoperabilidade conectando trilhos nacionais como UPI (Índia), SPFS (Rússia), CIPS (China) e Pix (Brasil). Para plataformas B2B, a promessa é reduzir taxas (de ~2–3% para ~0,1–0,5%, conforme citado) e acelerar liquidações — desde que questões de compliance e liquidez sejam resolvidas.
6.3 DPI como infraestrutura de plataforma
A DPI é apresentada como base de confiança e escala: identidade unificada, pagamentos digitais e troca de dados. O brief sugere aplicar padrões como Aadhaar + UPI para verificação mais rápida de contrapartes indianas, com sistemas similares podendo surgir em outros membros.
6.4 Financiamento climático → “green trade”
Iniciativas como o Tropical Forest Forever Fund e o climate finance criam novos mercados B2B: financiamento de projetos sustentáveis, créditos de carbono, exportação de tecnologias verdes e cadeias de suprimento sustentáveis. Plataformas podem lançar uma seção “Green Trade” para conectar fornecedores e compradores.
6.5 Corredores de comércio
O brief aponta lógica de corredores: BIMSTEC (Sul da Ásia), um corredor da África Oriental e conexões Mercosul–BRICS. Para marketplaces, o playbook é posicionamento por corredor, suporte localizado e sourcing por categorias.
Conclusão: um momento histórico para a economia global
A transferência de 12 de dezembro de 2025 é apresentada não como burocracia, mas como marcador de um reequilíbrio mais profundo da economia global. O “martelo amazônico” simboliza que esse reequilíbrio deve estar ancorado em sustentabilidade, justiça e inclusão. A presidência da Índia em 2026 será decisiva para medir se o Sul Global conseguirá construir alternativas práticas em pagamentos, facilitação do comércio e reforma institucional.
Para o comércio B2B, a mensagem é dupla: oportunidades maiores — e a necessidade de adaptação a novos trilhos de pagamento, novos corredores e novas realidades geopolíticas.
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Fontes e citações sugeridas
[1] PolicyEdge (15 dez 2025): Brazil formally transfers BRICS presidency to India for 2026 (conforme listado no brief original).
[2] Official BRICS Brazil (14 dez 2025): Brasil hands over BRICS presidency to India (conforme listado no brief original).
[3] Modern Diplomacy (23 dez 2025): The BRICS’ dollar dilemma (conforme listado no brief original).
[4] Stimson Center (26 ago 2025): 2025 BRICS Summit takeaways (conforme listado no brief original).
[5] Council on Foreign Relations (16 out 2024): What is BRICS and why is it expanding? (conforme listado no brief original).
[6] Ministry of External Affairs, India (26 set 2025): BRICS Joint Media Statement (conforme listado no brief original).
[7] Documentação oficial do BRICS: Rio Declaration (conforme listado no brief original).